Respeitar o passado, sem deixar de curtir o presente é essencial.

         
Roberto Carlos / Avril Lavigne


Respeitar o passado, sem deixar de curtir o presente é essencial (quase sempre)


   É exorbitante o número de pessoas que afirmam categoricamente não escutar nada do que foi lançado depois da década de 1990. Evitam até mesmo os discos mais recentes de suas bandas favoritas. Honestamente, essa galera que se agarra de maneira quase obsessiva ao passado, me dá sono. E não estou falando apenas de música, isso vale para tudo. Poxa. Tem um mundo inteiro de novidades para se conhecer, não faz sentido se apegar tanto ao passado. "Ah, mas no meu tempo era melhor". A melhor opção então seria se trancar no quarto com seus discos antigos, filiar - se a nova moda hipster de usar máquinas de escrever em locais públicos, porque enquanto isso o mundo continua andando pra frente.
  Sobre não conhecer bandas novas ( e aí vai um spoiler: sim, elas existem),  eu fico com a opinião de Dee Snider, Frontman da banda Twisted Sister, que ao refutar a declaração de Gene Simmons (Kiss) sobre o rock estar finalmente morto, disse que o rock está vivo e saudável, prosperando na mídias sociais. Disse também que as bandas que estão tocando atualmente, são ainda mais genuínas e com mais sentimentos, porque estão lá por amor ao rock. Vai, não custa nada procurar. Tenho certeza que você vai encontrar facilmente um grupo de gente disposta a fazer música de verdade com um baixo, uma guitarra e uma bateria.
    Agora que já deixei bem claro que acho esse papo de comparar grandes nomes da música com sons que estão surgindo agora nostálgico e anacrônico, admito que não há como negar que algumas bandas longevas da história recente da música se desviaram muito de seus caminhos originais - e não necessariamente para melhor. Algumas se perderam na própria proposta, outras abraçaram desavergonhadamente seu lado mais pop e comercial, e outras simplesmente perderam a força. Nem sempre o som de um artista se mantém o mesmo por muito tempo, afinal nem todo mundo consegue ser o AC/DC ou o Motörhead, que mantém o mesmo som desde o começo. É possível listar algumas bandas e artistas que mudaram da água pro vinho, ou vice–versa, evitando é claro alguns artistas como Madonna e David Bowie, já que a cada disco assumem um som e estilo diferente ( e conseguem ser geniais na maioria das vezes), e você vai perceber que mudar é sempre bom (ou quase sempre ).

                                                                    Bee Gees
Antes de tocaram em todo lugar com a trilha sonora do filme de Tony Manero “Os embalos de sábado à noite” e virarem os reis da disco music, o trio Bee Gees usavas as vozes dos irmãos Gibb a favor da psicodelia sessentista. Ouça por exemplo “Turn Of The Century”, do primeiro disco do trio, e compare com “Night fever”.




                                                                    Katy Perry
Em 2001, Katy Perry ainda se apresentava como Kate Hudson. Na época, o som se aproximava mais do rock cristão e do gospel, com músicas como “Faith Won’t Fail”. Hoje é sem sombra de dúvidas um dos maiores sucessos do pop atual com o disco “One Of The Boys” e a mudança completa de direção musical com “I Kissed A Girl”, que a levou ao estrelato.



                                          


                                                                      Pantera
Sim, é verdade: antes de serem os “Cowboys From Hell”, o Pantera adotava um visual meio Poison, com músicas mais direcionadas ao hair metal do que ao thrash que os levou ao estrelato.




                                                                       NXZero
O NXZero começou como qualquer banda de hardcore melancólico nos anos 2000, associado ao emocore, estilo recheado de sentimentalismo. O amadurecimento natural e o passar dos anos mudaram tanto o estilo do som, quanto o visual dos integrantes.


                                               


                                                   

                                                                     Os Mutantes
O trio Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias foi um dos mais geniais do rock brasileiro. Ajudaram a revolucionar a música feita no Brasil e foram reconhecidos internacionalmente por sua música experimental e divertidíssima.Com a saída de Rita Lee, a banda enveredou por um caminho mais progressivo. O som não é ruim, mas não chega nem aos pés da fase inicial da banda.



                                                                     Avril Lavigne
Avril Lavigne apareceu como uma “roqueirinha” para as massas, e encantou os adolescentes da época ( e confesso que disso sou a prova viva), e hoje percebo que não era tão ruim quanto os críticos diziam. Mas aí veio “Girlfriend” e até então tudo bem, acontece que a partir daí ela passou a ser uma cantora pop que não consegue emplacar nenhum sucesso, aí esta a música “Hello Kit” que não me deixa mentir.



                                                                    Goo Goo Dolls
Se você só conheceu o Goo Goo Dolls na trilha de “Cidade dos Anjos” com “Iris” vai se surpreender, assim como os fãs de Goo Goo Dolls antes dessa música se surpreenderam quando ela saiu. No começo, a banda mandava um punk rock bem descompromissado. Aí veio “Iris” e o som mudou muito, os fãs punks choraram enquanto o Goo Goo Dolls passou a embalar casais apaixonados e faturar milhões.´




                                                                     Nelly Furtado
Nelly Furtado estourou com a “Like A Bird”, uma boa música pop que dominou as rádios e levou o disco “Whoa, Nelly” ao topo das paradas com sua mistura de hip hop, rock, folk e até fado português. Quando o segundo disco, “Folklore”, não foi tão bem, veio a hora de render- se ao que vende: o pop com produtores de sucesso. Deu certo: a virada pop de “ Promiscuous Girl” em parceria com Timbaland, seu maior sucesso.



                                           


  Recentemente, o cantor Lucas Silveira, da banda Fresno, deu uma entrevista para a para a Billboard Brasil em que dizia: " A banda que não envelhece com seu público, fracassa". E isso vem justamente de um grupo que, recentemente, se libertou do rótulo de emo, pisou em cima e entregou alguns dos trabalhos mais inteligentes e inspirados de sua trajetória de 15 anos. É bom que fique claro para essa nova geração que Roberto Carlos, este senhor que perambula por aí cheio de manias, contratos e advogados, já foi um cantor de renome do Brasil durante a década de 60, ele cantava o que se convencionava chamar de rock na época, e foi a partir daí que surgiu muita coisa boa. Então, vamos refletir antes de sair por aí dizendo que ele é um velhinho que faz um especial modorrento de fim de ano na Rede Globo, cantando as mesmas músicas com os mesmos trejeitos e encantando as mesmas senhoras.



                                           

  Existem bandas que se recusam a envelhecer, que se recusam a amadurecer, a experimentar alguma direção sonora que as leve para frente, estão seguindo rigorosamente os anseios do seu público. Que não quer envelhecer. Que está satisfeito com as mesmas músicas de sempre. Sei que nisso tudo, não tem certos ou errados, como em tudo no mundo da cultura popular. Tem o que você escolhe como certo para você. Eu já estou bem feliz porque consigo muito bem curtir o passado. Ele está lá, ao meu alcance, para ser ouvido quando eu quiser, a um play de distância. Mas isso não me impede de experimentar o futuro, e de fazer um pequeno esforço para entender a nova proposta de uma banda que já gostei muito.